quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Limpeza étnica e a lenda de Tarzan

Limpeza étnica e a lenda de Tarzan




Nos primeiros anos do século XX, o tratamento dispensado pelo rei Leopoldo II da Bélgica ao Congo nas quase três décadas que duravam já seu domínio na região eclodiu na forma de escândalo: de despachos de diplomatas ingleses a relatos em livro como o crime do congo, de Arthur Conan Doyle, vinham de todo tipo de fonte as noticias das atrocidades cometidas por Leopoldo no estado privado de 2,6 milhões de quilômetros quadrados que lhe fora concedida em 1885. Leopoldo reivindicara a área como base numa longa lista de ações benemerentes, cujo intuito final seria “elevar” as populações locais. Em vez disso, o rei belga quase as varreu do mapa.

Extraindo marfim, borracha, minérios e diamantes em quantidades gigantescas para vendê-los ao mercado europeu, Leopoldo escravizou os nativos e perpetuou um genocídio. 

Estima-se que entre um quinto e metade da população tenha perecido sob a violência de sua ocupação. O inglês Joseph Conrad fez dessa brutalidade a matéria de uma obra prima da literatura, o coração das trevas. E agora, o diretor David Yates e seus roteiristas se inspiraram nesses mesmos fatos para atualizar um dos personagens mais populares do século XX. 

Em A lenda de Tarzan (The legend of Tarzan, estados unidos, 2016), já em cartaz no país, o homem da selva criado pelo americano Edgar Rice Burroughs em 1912 não mais simboliza a superioridade branca na África. Pelo contrario: o Tarzan vivido por Alexander Skarsgard é agora testemunha consternada da crueldade colonial.

Nas centenas de versões que Tarzan já ganhou, é comum incluir-se alguma passagem que narre seu ajuste à civilização: deixado sozinho na floresta tropical, ainda bebê, com a morte de seus pais após um naufrágio, John Clayton, herdeiro do título de visconde de Greystoke, sobreviveu graças ao amor materno dedicado a ele por uma fêmea de macaco mangani (espécie inventada por Burroughs). 

Criado dentro do bando, crendo-se ele macaco, Tarzan só na juventude travou os primeiros contatos com seres humanos- e o ultimo filme bom de Tarzan, o Graystoke de 1984, com Christopher Lambert, tirava ótimo partido cômico do seu nem sempre suave ingresso a sociedade britânica.
Não é comedia, porém, que o inglês David Yates, diretor de quatro episódios de Harry Potter, tem em mente. É aventura à antiga- romântica e heroica. Aqui, lorde Graystoke já está aclimatado e aristocratizado, beberica chá com o mindinho em riste e, nos salões da sua propriedade, faz bela figura com Jane (a australiana Margot Robbie, aquele espetáculo de loira de O lobo de Wall Street, que logo será vista também como a Arlequina de esquadrão suicida). Mas restam, no visconde, o banzo pela África deixada para trás e uma inquietação de animal enjaulado- e o sueco Skarsgard, além de ser estatuesco e lindo de nocautear, é um ator perito em uma certa melancolia que só se dissipa com a ação (como na série Generation Kill) e nos instintos ferais que se agitam sob a superfície (presentes no seu vampiro nórdico de True Blood, e aqui exemplificados na cena quentíssima em que, vendo Jane pela primeira vez, ele a cheira dos pés à cabeça). Quando os emissários de Leopoldo II o convidam para observar os supostos benefícios do rei ao Congo, ele portanto recusa a viagem, porque sabe que não é o lorde que interessa a eles, mas sim Tarzan que ele tão cuidadosamente reprime.

Um desconhecido, porém o faz mudar de ideia: o americano George Washington Williams, interpretado com graça e prazer por Samuel L. Jackson, precisa de uma fachada para ir ao Congo verificar em pessoa os relatos de escravidão- e proporcionar-lhe essa fachada é o pretexto para que o visconde retorne a África, arranque a gravata e todo o resto da roupa, acaricie leões amigos na savana e pendure em cipós na selva, em resantes que combinam o trabalho de atores num estúdio com imagens captadas no Gabão. A nostalgia acaba rápido: o caviloso Leon Rom (Christoph Waltz, de Batardos Inglórios, em outra variação saborosa dos seus vilões de sotaque teutônico), capataz das atividades de Leopoldo na Bélgica, tem planos nefastos não só para Tarzan como também para Jane.- que na nova personificação, está longe de ser indefesa.
O verdadeiro par de Tarzan aqui, contudo é George Washington Williams, que, aliás, representa um personagem real: negro que lutou pela União na guerra civil, pastor, advogado e jornalista, ele foi um dos primeiros a denunciar a barbaridade de Leopoldo II no Congo, onde esteve em 1890. Como ex-soldado, não é impossível que tivesse a resistência física e a ótima pontaria que Jackson demostra no enredo. Mas é para legitimar o filme que ele está lá: em um Tarzan assim zeloso em corrigir o registro histórico, seria imperdoável que fosse o filho branco da África a lançar luz sobre a infâmia que um negro primeiro se preocupou em averiguar e então alardear.
FONTE: revista Veja, julho de 2016.


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